quinta-feira, 31 de julho de 2008

Meditação do dia...

«Não vos preocupeis com o que haveis de comer ou com o que haveis de vestir. Reparai nas avezinhas do céu: elas não semeiam nem colhem e, no entanto, o vosso pai celestial alimenta-as. Vêde os lírios do campo: não fiam nem tecem; e no entanto, nem Salomão em toda a sua glória se vestiu tão bem como qualquer deles... Cuidai, portanto, em primeiro lugar, das coisas do Reino e o resto vos será dado por acréscimo».
Esta parábola de Jesus pode assumir o significado que cada um lhe quiser atribuir. Porém, interpreto-a como um valor seguro para o nosso tempo. Com a grave crise ambiental, os problemas energéticos e o esgotamento dos recursos da Terra, urge vivermos segundo outro paradigma de vida, assente em princípios e valores espirituais, os quais deverão ser prioritários nas nossas opções. Não se trata nem de não trabalhar, de produzir, nem, muito menos, de optar pela carência. Do que se trata é de opções pessoais de vida orientadas pela simplicidade de meios e pela riqueza de objectivos.
Ou seja, devemos esperar, certamente, por profundas transformações económicas, sociais e até políticas - são, a meu ver, incontornáveis, sendo que o que está na agenda da humanidade é o sentido dessas transformações. Mas é exigido a cada um individualmente um esforço de transformação pessoal, no sentido da tal simplicidade de meios com riqueza de objectivos.

domingo, 27 de julho de 2008

Meditação do dia...

O futuro da Terra e da Humanidade vai implicar que cada vez mais se aliem dialecticamente as mudanças no plano individual e no plano global - local, nacional e mundial. Esperar por mudanças estruturais, tomadas a diversos níveis ( ambiental, económico, social...) como as únicas susceptíveis de trazerem mudanças fortes no mundo, é uma ilusão se, concomitantemente, não forem acompanhadas de autênticas mudanças ao nível de cada um de nós, no plano pessoal. Tudo leva a crer que, desde já e cada vez mais no futuro próximo, a humanidade, para sobreviver e com ela a diversidade dos outros seres que a acompanham - não sobreviverá a humanidade se não sobreviverem todos os outros seres ( minerais, vegetais e animais ) - não pode manter os estilos de vida consumistas a que se permite uma parte ínfima dos seus membros. Enquanto se esperam mudanças de fundo nas opções globais, exige-se uma redefinição voluntária e assumida das prioridades individuais. Parece-me que o lema deverá ser viver «com simplicidade de meios e uma riqueza ampla de objectivos».

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O petróleo da Guiné Equatorial...

É previsível que a Guiné Equatorial, pequeno mas, pelos vistos, rico país da África Equatorial, se venha a tornar, a breve trecho, o país da moda em todo o ocidente democrático, beneficiando do beneplácito diplomático e político de Portugal, via CPLP.
Trata-se, de acordo com a imprensa nacional e internacional, de um regime totalitário, de meio milhão de habitantes, que não sabem o que são direitos humanos, dignidade humana, ou o que seja um livro ou uma biblioteca. Teodoro Obiang é o chefe e senhor todo-poderoso deste pobre país.
Pobre, mas rico em petróleo e gás natural. E isso, para Portugal e para os EUA e suas petrolíferas é quanto basta. Não para a Espanha, cujo Rei e Primeiro-Ministro se recusaram já a receber o ditador. Portugal prefere alinhar pela "política dos interesses" e mandar às malvas os princípios e valores...Na época da «mobilização total» dos fundos da terra e do fundo humano para o "TRABALHO", perder tempo com os "irrealismos" da moral implícita nos direitos humanos seria, para os políticos que hoje nos governam, de um idealismo inconcebível. VIVA O PETRÓLEO, ABAIXO OS DIREITOS HUMANOS!

sábado, 19 de julho de 2008

Crise, comércio tradicional e ASAE

A crítica que eu faço à actuação da ASAE não visa as medidas - justas - de zelar pela qualidade, higiene e outros cuidados a ter com os produtos colocados à venda. Trata-se de uma questão de pedagogia. O que se tem feito, desde o princípio, é cortar a direito, com o pretexto justo de zelar pela qualidade dos produtos e bens. Ora, não teria sido mais correcto optar por uma política de incentivos e de apoio - que não significa dar dinheiro sem mais - aos sectores tradicionais do pequeno comércio, da gastronomia, e do artesanato, acompanhada de uma pedagogia sobre os cuidados e as regras indispensáveis ao certificado de qualidade e, obviamente, da necessária fiscalização"a posteriori" por parte da ASAE? Não foi essa a opção. Preferiu-se "atacar" desmesuradamente tudo o que era único, loja de bairro, café da esquina, etc.
Está à vista, desde há muito tempo, a decadência do chamado comércio tradicional. Não apenas por causa da ASAE, mas também pela fortíssima concorrência das chamadas "grandes superfícies". Os efeitos negativos deste fenómeno já se começam a fazer sentir e a diversos níveis. Em primeiro lugar, o acentuar dos problemas da pequena e média "classe média", á qual pertencem numerosos pequenos comerciantes, vítimas daquela concorrência. Em segundo lugar, a decadência - e o fim - destes sectores do comércio tradicional traz ainda como consequência o fim de um ancoramento de vastos sectores das populações que, em tempos de crise económica e social como a que vivemos, encontravam nas lojas e mercearias de bairro o "crédito" nas suas compras que as grandes superfícies não facultam. Por outras palavras: comprava-se agora o açúcar, o arroz e o bacalhau e ia-se pagando aos poucos. Deste modo, ia sobrevivendo o pequeno comerciante, ainda que por vezes com dificuldades e até cobrando preços algo mais elevados do os "modelos e Continentes"; e iam sobrevivendo muitos pobres ou remediados graças ao "arrimo" do merceeiro de bairro.
Mas, infelizmente, não é esta a visão dos nossos líderes políticos. Até quando?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Há lugar para a esperança?

Um dos argumentos factuais invocados pelos próceres da Globalização que temos é o de que com ela e graças a ela milhões de pessoas no mundo passaram a ser alimentadas. Haveria menos fome no mundo, portanto.
É óbvio que devemos congratular-nos com esse facto, embora sujeitando-o, através do recurso à dúvida metódica, constantemente à análise. Até porque, dados mais recentes, têm vindo a dar razão àqueles que questionam a filosofia que tem presidido ao processo da globalização em todas as suas vertentes, conduzida, praticamente, por uma organização global: a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Porém, e mantendo o reconhecimento de que é positivo e é bom que haja menos gente com fome no mundo, importa colocar uma outra questão de fundo: será que a única esperança para milhões e milhões de homens e de mulheres da nossa Humanidade consiste unicamente em nascer para comer? Haverá esperança para algo mais?

domingo, 13 de julho de 2008

D. António Ferreira Gomes

A sua figura é hoje recordada pelo seu «Pró-Memória», a chamada "carta" a Salazar. Escrito em 1958, faz hoje precisamente cinquenta anos.
Mais do que um texto polémico, que abalou o regime do Estado Novo, o «Pró-Memória» abalou e despertou as consciências, católicas e não só.
Tive a honra de conhecer D. António Ferreira Gomes. Sendo, nessa altura, ainda muito jovem, não conferi, nesse tempo, até por muitos desconhecimentos e muita ingenuidade, o verdadeiro valor à experiência. Hoje, que conheço melhor não apenas a figura, mas ainda uma boa parte da sua obra, não tenho dúvidas em afirmar que, entre muitas outras das suas qualidades como homem, como bispo e como intelectual e humanista, figura a sua imensa CORAGEM. Neste aspecto, foi, sem qualquer dúvida, um homem de grande coragem.
Penso ainda que D. António Ferreira Gomes, a sua figura e a sua obra, permanece actual, profundamente actual, numa época de demissões individuais e colectivas, de "encostos" confortáveis, de subordinações oportunistas. A frase que D.António Ferreira Gomes um dia mandou afixar na entrada do Seminário de Vilar, que frequentei, mantém, hoje mais do que nunca, o seu potencial pedagógico: «De joelhos diante de Deus! De pé diante dos homens!»

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O vampirismo

Veio agora a SEDES criticar o Governo pelo seu eleitoralismo, alegadamente evidenciado por algumas medidas sociais, tais como pequenas deduções nos escalões dos impostos dos agregados mais desfavorecidas e uns abatimentos no IMI. Aquela Associação aproveitou ainda para formular críticas ao Governo devido ao recuo nas reformas que vinha encetando, mas nficamos sem saber quais são essas reformas, tanto mais que, ainda recentemente, foi aprovado o chamado "Código do Trabalho", que tanto agradou, de um modo geral, ao patronato.

Afinal, o que quer a Sedes? A resposta só pode ser uma: pressionar o Governo a tomra mais medidas penalizadoras dos trabalhadores e de vastas camadas da classe média, assorbadas e aflitas pelo curso da vida que as afecta no dia a dia. A Sedes ainda quer mais...Tal como o chamado "Compromisso Portugal".

É caso para afirmar «Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada». Ou então, recordar aqui as palavras do nosso Almeida Garret no seu livro «Portugal na Balança da Europa» e perguntar tal como ele: «Quantos pobres são necessários para criar um rico em Portugal?»

domingo, 27 de abril de 2008

Vem aí a Fome!

O jornal «Público» abre hoje a sua edição com o espectro da escassez de alimentos que ameaça, em todo o mundo, mas principalmente em África, Ásia e AméricaLatina, milhões de pobres, talvez perto de um bilião.
Os números são impressionantes, mas, acima de tudo, muito preocupantes. De acordo com o "Programa Alimentar Mundial" da ONU, os pobres gastam 60 a 80% do seu rendimento na alimentação, enquanto os ricos apenas 10 a 20%. Isto quer dizer, em termos concretos, que quem ganha mais, gasta mais e melhor em alimentação. De facto, uma pessoa com um rendimento de 500 euros que gaste 20% na sua alimentação, dispensa nesta 100 euros, enquanto que uma pessoa que tenha um rendimento de 100 euros e gaste 80% deste na sua alimentação dispensa 80 euros, ou seja, menos - e certamente de pior qualidade - do que aquele.
Pode ainda dizer-se, por ser verdade, que cerca de 10% da humanidade passa os seus dias a pensar como se há-de «fartar de tudo», enquanto os restantes 90% passa os dias da sua vida a pensar em como satisfazer as suas necessidades mais básicas e de sobrevivência.
São, evidentemente, muitas as questões que estão aqui em jogo. Mas não se pense que elas se resolvem com «esmolas» aos pobres ou com mais uma «revolução» seja ela da extrema-direita ou da extrema esquerda. O problema é mais fundo e toca nas estruturas políticas e sociais e também desafia cada um de nós individualmente. É uma ilusão pensar-se que tudo será e deverá ser resolvido pelos políticos e pelas instituições globais e nacionais. É necessário, mas muuito insuficiente. O desafio coloca-se igualmente e desde já a cada um de nós. Agrade-nos ou não, a humanidade e o planeta só terão futuro se e quando cada um de nós optarmos por uma vida assente na «simplicidade de meios ( materiais) e na riqueza de objectivos»

António Assunção

domingo, 13 de abril de 2008

O Homem...ser divino

Crente é pouco sê-te Deus

e para o nada que é tudo

inventa caminhos teus


Agostinho da Silva ( Uns poemas de Agostinho)


António Assunção

sábado, 12 de abril de 2008

Entradas de leão, saídas de sendeiro

Muito mais do que relevar o carácter de bom senso que se deve atribuir aos resultados saídos das negociações de ontem entre o Ministério da educação e a plataforma sindical, importa antes salientar a mudança quase radical por parte dos responsáveis da 5 de Outubro.
De facto, persistir nas anteriores exigências estava à vista que era um erro de todo o tamanho. Defendi sempre que um sistema exigente de avaliação dos professores não pode ser montado em cima do joelho e contra tudo e contra todos. Pela sua natureza e alguns efeitos que produzirão - como se espera - na qualidade da educação, deve ser montado em diálogo com as Escolas e com os professores - afinal, qualquer sistema de avaliação, mesmo o que se faz nas empresas privadas, é feito com a particiapçaõ dos profissionais - e ser preparado com tempo. Não era issso que pretendiam os responsáveis ministeriais desde o início.
Mas, afinal, porquê esta mudança tão radical de atitude da ministra? Porquê estas saídas de sendeiro, que se seguiram às entradas de leão? Aponto duas razões: a primeira e talvez a principal, tem a ver com a absoluta falta de rumo político para a educação. A segunda, também importante, relaciona-se com o facto de dentro de mais ou menos ano e meio se realizarem eleições. Se assim for, então, a este ministério que alguns já classificam como o melhor desde o 25 de Abril, nota negativa para Maria de Lurdes Rodrigues e seus pares.
António Assunção

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Miguel Real e a educação

Ne seu livro "A Morte de Portugal"( Campo das Letras, 2007), Miguel Real faz um balanço muito crítico do estado da educação portuguesa. Inscrevendo-se num paradigma cultural e espiritual, o autor procede a uma crítica demolidora da acção deste governo. Pronunciando-se acerca de algumas das medidas mais emblemáticas, como a distribuição de computadores portáteis a professores e a alunos, a dotação de quadros interactivos nas salas de aula e a introdução da disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação, entre outras, Miguel Real escreve: «Todas estas medidas estariam correctas se fossem acompanhadas pelo reforço de uma visão humanista e cultural da escola, tendentes a complementar tecnicamente a consolidação de um universo ético na escola fundado nos valores da dignidade, da partilha, da solidariedade, da honestidade, da lealdade, da honradez». E mais adiante: «Diferentemente, estas medidas tecnicistas, sem sentido moralmente transcendente, resumem-se a acentuar a vertente individualista e instrumental da escola, gerando cidadãos unidimensionai, submetidos exclusivamente à omnipotência do dinheiro e ao prestígio nascisista do poder, acentuando fortemente, desde a idade pré-escolar, os valores ligados à tecnocracia, a inveja, a cobiça, a ambição egotista, a manha, a dissenção. Recentemente, a exemplo do vector ideológico da sua governação, a escola converteu-se no controle estatístico da domesticação de cidadãos, verdadeira maternidade de técnicos».
Trata-se de mais um contributo para um debate sério e calmo não só sobre o estado da nossa educação, mas sobretudo sobre as bases em que deve assentar uma autêntica educação dos portugueses. De todos os portugueses e não só das crianças e dos jovens portugueses. As recentes medidas tomadas sobre os professores, tomadas de forma desgarrada de uma profunda mudança paradigmática que Miguel Real deixa entrever, correm o risco de vermos os seus efeitos limitados a mais valias orçamentais. E os fenómenos mais recentes de indisciplina e até de violência no interior das escolas evidenciam a tremenda crise que atravessa a Escola e a educação em Portugal. Dir-se-à que a crise é da sociedade e que a Escola mais não reflecte do que isso mesmo. Mas não merecerá esta constatação uma reflexão acerca das relações Escola/Sociedade? Que valores deve a Escola transmitir? Que tipo de homem deve formar a Escola: o «homo economicus», isto é, mero produtor/consumidor? Eis algumas das questões de fundo que estão aí para debate.
António Assunção
António Assunção

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sós...

De onde vens, ó amigo,

que nunca vi teus sinais

do olhar ausentes?


Onde estás, ó amigo,

que não tenho sentido

de ti o grito da tua raiva?


Para onde vais, ó amigo,

que não deixas

de ti

sinais da tua ânsia

ao vento?


António Assunção

Vêm aí as "betoneiras" e...as eleições

Segundo escrevem alguns dos nossos comentadores, com destaque para José Manuel Fernandes, do jornal «Público», o Governo parece ter deixado cair o tão propalado "choque tecnológico" e já redireccionou as prioridades, agora que as eleições estão à porta. E as prioridades giram todas à volta do "betão".
O país, de forma aliás recorrente, vai para as estradas, para as barragens e para as pontes. As betoneiras, postas a descansar nos últimos anos, enquanto o "grande timoneiro" nos ia engodando com o "choque tecnológico" - aliás, importado, como é tradição histórica em Portugal, do estrangeiro, neste caso do MIT - vão deixar o descanso e vão invadir os estaleiros do país. É que, um pouco à imagem do que se passava na segunda metade do século XIX, nomeadamente com o "fontismo", só o cimento e o ferro são visíveis e, portanto, dão votos. Ao contrário do "choque tecnológico", invisível e pouco atractivo.
Estou em crer que o "grande timoneiro", à imagem do Guterres da "paixão pela da educação", já se deixou dessa paixão assolapada pela "tecnologia" e entrou já no tempo do "realismo" eleitoral, daquilo que, enfim, dá votos. Tanto mais que, um verdadeiro "choque tecnológico" exigia como sua condição indispensável e prioritária uma população altamente educada e culta. Ora, como a reforma da educação se resumiu a «pôr os professores na ordem» e isso já está pronto, com grandes poupanças para o grande desígnio nacional que é o Orçamento de Estado, o resto, isto é, uma autêntica reforma da educação, condição, repito, de um "choque tecnológico", fica para as calendas gregas...(Ah!, fica a previsão, sujeita a enganos: neste nosso capitalismo de estado, no qual apenas o povo «jamais beijou a sombra do Estado», nós não vamos ver o engodo de certas empresas pelo bolo das obras em perspectiva, nem envelopes "por baixo da mesa" quais "cheques-garantia" de futuras concessões de qualquer um dos dois partidos do "bloco dos interesses", nem outras coisas mais...)
António Assunção

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Viva o Povo do Tibete Livre!

Não assinei a petição apresentada hoje mesmo ao Parlamento português contra a repressão do povo do Tibete pela ditadura chinesa, mas estou de alma e coração com aquele povo de uma maravilhosa cultura e vida espiritual.

Sinceramente, estou pouco confiante que os nossos parlamentares, a começar pelo grupo parlamentar do partido do governo, sigam as recomendações dos peticionários. Manda o "realismo" político e ...mandam sobretudo os interesses e os negócios. Nos nossos dias, a política, no sentido nobre do termo, cedeu o lugar a esses interesses e quem manda é esse "mundo".

Já aquando da vinda a Portugal do Dalai Lama, o governo do sr. Sócrates deu uma imagem degradante de um país que, ao longo da sua história de 800 anos, sempre se caracterizou pelo seu universalismo e pelo seu "ecumenismo". Nos nossos dias, os princípios e os valores também já foram "comprados" pelo dinheiro...

Aqui fica o meu apoio ao povo do Tibete!

António Assunção

domingo, 6 de abril de 2008

Miguel Real e "A Morte de Portugal"

Tive a sorte de conhecer, muito recentemente,Miguel Real, por ocasião da sua vinda à Covilhã, convidado pelo "Café Literário" da Câmara Municipal. Antes disso, o meu conhecimento deste pensador, filósofo e escritor, vinha da leitura do seu ensaio "A Morte de Portugal", publicado pelo "Campo das Letras".A sua obra, literária e ensaística, contudo, é muito mais vasta e diversificada. Ainda no campo do ensaio, realce para "Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa" e, no domínio da ficção, quero realçar "A Voz da Terra", um romance histórico sobre o Marquês de Pombal e o Terramoto de 1755. É claro que a sua obra é muito mais vasta.
O ensaio "A Morte de Portugal" é uma profunda reflexão sobre a cultura e a História de Portugal desde a sua fundação até aos nossos dias. O autor, pensador crítico da cultura portuguesa, identifica, a partir da segunda metade do século XVI, ou, se quisermos, a partir do reinado de D.João III, quatro complexos culturais pelos quais Portugal se foi vendo a si mesmo ao longo da sua História: o complexo viriatino, associado, desde a Renascença Portuguesa, a Viriato, símbolo da «origem exemplar de Portugal»; o complexo Vieirino, cuja figura tutelar foi Padre António Vieira, o qual, depois da decadência iniciada a partir de D. João III, na segunda metade do século XVI e do fracasso de Alcácer Quibir, como que recupera a visão providencialista da nossa História, radicada em Ourique e continuada pelo «milenarismo» de Bandarra: Real denomina-o também o complexo de Nação Superior; o complexo de Nação Inferior surge com Pombal, que, na ânsia de nos integrar à força na Europa do seu tempo, fez tábua rasa da nossa idiossincrasia, forçando as nossas elites mediante um banho de "Europa": é o complexo pombalino; por fim, o complexo que Miguel Real chama de "Canibalismo Cultural" que caracteriza o Portugal moderno e contemporâneo, um tempo culturofágico, em que os portugueses se devoram mutuamente uns aos outros.
Miguel Real deixa, neste seu ensaio, uma visão muito crítica do Portugal do nosso tempo. Vale a pena ler e reflectir.