sexta-feira, 11 de abril de 2008

Miguel Real e a educação

Ne seu livro "A Morte de Portugal"( Campo das Letras, 2007), Miguel Real faz um balanço muito crítico do estado da educação portuguesa. Inscrevendo-se num paradigma cultural e espiritual, o autor procede a uma crítica demolidora da acção deste governo. Pronunciando-se acerca de algumas das medidas mais emblemáticas, como a distribuição de computadores portáteis a professores e a alunos, a dotação de quadros interactivos nas salas de aula e a introdução da disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação, entre outras, Miguel Real escreve: «Todas estas medidas estariam correctas se fossem acompanhadas pelo reforço de uma visão humanista e cultural da escola, tendentes a complementar tecnicamente a consolidação de um universo ético na escola fundado nos valores da dignidade, da partilha, da solidariedade, da honestidade, da lealdade, da honradez». E mais adiante: «Diferentemente, estas medidas tecnicistas, sem sentido moralmente transcendente, resumem-se a acentuar a vertente individualista e instrumental da escola, gerando cidadãos unidimensionai, submetidos exclusivamente à omnipotência do dinheiro e ao prestígio nascisista do poder, acentuando fortemente, desde a idade pré-escolar, os valores ligados à tecnocracia, a inveja, a cobiça, a ambição egotista, a manha, a dissenção. Recentemente, a exemplo do vector ideológico da sua governação, a escola converteu-se no controle estatístico da domesticação de cidadãos, verdadeira maternidade de técnicos».
Trata-se de mais um contributo para um debate sério e calmo não só sobre o estado da nossa educação, mas sobretudo sobre as bases em que deve assentar uma autêntica educação dos portugueses. De todos os portugueses e não só das crianças e dos jovens portugueses. As recentes medidas tomadas sobre os professores, tomadas de forma desgarrada de uma profunda mudança paradigmática que Miguel Real deixa entrever, correm o risco de vermos os seus efeitos limitados a mais valias orçamentais. E os fenómenos mais recentes de indisciplina e até de violência no interior das escolas evidenciam a tremenda crise que atravessa a Escola e a educação em Portugal. Dir-se-à que a crise é da sociedade e que a Escola mais não reflecte do que isso mesmo. Mas não merecerá esta constatação uma reflexão acerca das relações Escola/Sociedade? Que valores deve a Escola transmitir? Que tipo de homem deve formar a Escola: o «homo economicus», isto é, mero produtor/consumidor? Eis algumas das questões de fundo que estão aí para debate.
António Assunção
António Assunção

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