Tive a sorte de conhecer, muito recentemente,Miguel Real, por ocasião da sua vinda à Covilhã, convidado pelo "Café Literário" da Câmara Municipal. Antes disso, o meu conhecimento deste pensador, filósofo e escritor, vinha da leitura do seu ensaio "A Morte de Portugal", publicado pelo "Campo das Letras".A sua obra, literária e ensaística, contudo, é muito mais vasta e diversificada. Ainda no campo do ensaio, realce para "Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa" e, no domínio da ficção, quero realçar "A Voz da Terra", um romance histórico sobre o Marquês de Pombal e o Terramoto de 1755. É claro que a sua obra é muito mais vasta.
O ensaio "A Morte de Portugal" é uma profunda reflexão sobre a cultura e a História de Portugal desde a sua fundação até aos nossos dias. O autor, pensador crítico da cultura portuguesa, identifica, a partir da segunda metade do século XVI, ou, se quisermos, a partir do reinado de D.João III, quatro complexos culturais pelos quais Portugal se foi vendo a si mesmo ao longo da sua História: o complexo viriatino, associado, desde a Renascença Portuguesa, a Viriato, símbolo da «origem exemplar de Portugal»; o complexo Vieirino, cuja figura tutelar foi Padre António Vieira, o qual, depois da decadência iniciada a partir de D. João III, na segunda metade do século XVI e do fracasso de Alcácer Quibir, como que recupera a visão providencialista da nossa História, radicada em Ourique e continuada pelo «milenarismo» de Bandarra: Real denomina-o também o complexo de Nação Superior; o complexo de Nação Inferior surge com Pombal, que, na ânsia de nos integrar à força na Europa do seu tempo, fez tábua rasa da nossa idiossincrasia, forçando as nossas elites mediante um banho de "Europa": é o complexo pombalino; por fim, o complexo que Miguel Real chama de "Canibalismo Cultural" que caracteriza o Portugal moderno e contemporâneo, um tempo culturofágico, em que os portugueses se devoram mutuamente uns aos outros.
Miguel Real deixa, neste seu ensaio, uma visão muito crítica do Portugal do nosso tempo. Vale a pena ler e reflectir.
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