sábado, 19 de julho de 2008

Crise, comércio tradicional e ASAE

A crítica que eu faço à actuação da ASAE não visa as medidas - justas - de zelar pela qualidade, higiene e outros cuidados a ter com os produtos colocados à venda. Trata-se de uma questão de pedagogia. O que se tem feito, desde o princípio, é cortar a direito, com o pretexto justo de zelar pela qualidade dos produtos e bens. Ora, não teria sido mais correcto optar por uma política de incentivos e de apoio - que não significa dar dinheiro sem mais - aos sectores tradicionais do pequeno comércio, da gastronomia, e do artesanato, acompanhada de uma pedagogia sobre os cuidados e as regras indispensáveis ao certificado de qualidade e, obviamente, da necessária fiscalização"a posteriori" por parte da ASAE? Não foi essa a opção. Preferiu-se "atacar" desmesuradamente tudo o que era único, loja de bairro, café da esquina, etc.
Está à vista, desde há muito tempo, a decadência do chamado comércio tradicional. Não apenas por causa da ASAE, mas também pela fortíssima concorrência das chamadas "grandes superfícies". Os efeitos negativos deste fenómeno já se começam a fazer sentir e a diversos níveis. Em primeiro lugar, o acentuar dos problemas da pequena e média "classe média", á qual pertencem numerosos pequenos comerciantes, vítimas daquela concorrência. Em segundo lugar, a decadência - e o fim - destes sectores do comércio tradicional traz ainda como consequência o fim de um ancoramento de vastos sectores das populações que, em tempos de crise económica e social como a que vivemos, encontravam nas lojas e mercearias de bairro o "crédito" nas suas compras que as grandes superfícies não facultam. Por outras palavras: comprava-se agora o açúcar, o arroz e o bacalhau e ia-se pagando aos poucos. Deste modo, ia sobrevivendo o pequeno comerciante, ainda que por vezes com dificuldades e até cobrando preços algo mais elevados do os "modelos e Continentes"; e iam sobrevivendo muitos pobres ou remediados graças ao "arrimo" do merceeiro de bairro.
Mas, infelizmente, não é esta a visão dos nossos líderes políticos. Até quando?

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