domingo, 27 de abril de 2008

Vem aí a Fome!

O jornal «Público» abre hoje a sua edição com o espectro da escassez de alimentos que ameaça, em todo o mundo, mas principalmente em África, Ásia e AméricaLatina, milhões de pobres, talvez perto de um bilião.
Os números são impressionantes, mas, acima de tudo, muito preocupantes. De acordo com o "Programa Alimentar Mundial" da ONU, os pobres gastam 60 a 80% do seu rendimento na alimentação, enquanto os ricos apenas 10 a 20%. Isto quer dizer, em termos concretos, que quem ganha mais, gasta mais e melhor em alimentação. De facto, uma pessoa com um rendimento de 500 euros que gaste 20% na sua alimentação, dispensa nesta 100 euros, enquanto que uma pessoa que tenha um rendimento de 100 euros e gaste 80% deste na sua alimentação dispensa 80 euros, ou seja, menos - e certamente de pior qualidade - do que aquele.
Pode ainda dizer-se, por ser verdade, que cerca de 10% da humanidade passa os seus dias a pensar como se há-de «fartar de tudo», enquanto os restantes 90% passa os dias da sua vida a pensar em como satisfazer as suas necessidades mais básicas e de sobrevivência.
São, evidentemente, muitas as questões que estão aqui em jogo. Mas não se pense que elas se resolvem com «esmolas» aos pobres ou com mais uma «revolução» seja ela da extrema-direita ou da extrema esquerda. O problema é mais fundo e toca nas estruturas políticas e sociais e também desafia cada um de nós individualmente. É uma ilusão pensar-se que tudo será e deverá ser resolvido pelos políticos e pelas instituições globais e nacionais. É necessário, mas muuito insuficiente. O desafio coloca-se igualmente e desde já a cada um de nós. Agrade-nos ou não, a humanidade e o planeta só terão futuro se e quando cada um de nós optarmos por uma vida assente na «simplicidade de meios ( materiais) e na riqueza de objectivos»

António Assunção

domingo, 13 de abril de 2008

O Homem...ser divino

Crente é pouco sê-te Deus

e para o nada que é tudo

inventa caminhos teus


Agostinho da Silva ( Uns poemas de Agostinho)


António Assunção

sábado, 12 de abril de 2008

Entradas de leão, saídas de sendeiro

Muito mais do que relevar o carácter de bom senso que se deve atribuir aos resultados saídos das negociações de ontem entre o Ministério da educação e a plataforma sindical, importa antes salientar a mudança quase radical por parte dos responsáveis da 5 de Outubro.
De facto, persistir nas anteriores exigências estava à vista que era um erro de todo o tamanho. Defendi sempre que um sistema exigente de avaliação dos professores não pode ser montado em cima do joelho e contra tudo e contra todos. Pela sua natureza e alguns efeitos que produzirão - como se espera - na qualidade da educação, deve ser montado em diálogo com as Escolas e com os professores - afinal, qualquer sistema de avaliação, mesmo o que se faz nas empresas privadas, é feito com a particiapçaõ dos profissionais - e ser preparado com tempo. Não era issso que pretendiam os responsáveis ministeriais desde o início.
Mas, afinal, porquê esta mudança tão radical de atitude da ministra? Porquê estas saídas de sendeiro, que se seguiram às entradas de leão? Aponto duas razões: a primeira e talvez a principal, tem a ver com a absoluta falta de rumo político para a educação. A segunda, também importante, relaciona-se com o facto de dentro de mais ou menos ano e meio se realizarem eleições. Se assim for, então, a este ministério que alguns já classificam como o melhor desde o 25 de Abril, nota negativa para Maria de Lurdes Rodrigues e seus pares.
António Assunção

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Miguel Real e a educação

Ne seu livro "A Morte de Portugal"( Campo das Letras, 2007), Miguel Real faz um balanço muito crítico do estado da educação portuguesa. Inscrevendo-se num paradigma cultural e espiritual, o autor procede a uma crítica demolidora da acção deste governo. Pronunciando-se acerca de algumas das medidas mais emblemáticas, como a distribuição de computadores portáteis a professores e a alunos, a dotação de quadros interactivos nas salas de aula e a introdução da disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação, entre outras, Miguel Real escreve: «Todas estas medidas estariam correctas se fossem acompanhadas pelo reforço de uma visão humanista e cultural da escola, tendentes a complementar tecnicamente a consolidação de um universo ético na escola fundado nos valores da dignidade, da partilha, da solidariedade, da honestidade, da lealdade, da honradez». E mais adiante: «Diferentemente, estas medidas tecnicistas, sem sentido moralmente transcendente, resumem-se a acentuar a vertente individualista e instrumental da escola, gerando cidadãos unidimensionai, submetidos exclusivamente à omnipotência do dinheiro e ao prestígio nascisista do poder, acentuando fortemente, desde a idade pré-escolar, os valores ligados à tecnocracia, a inveja, a cobiça, a ambição egotista, a manha, a dissenção. Recentemente, a exemplo do vector ideológico da sua governação, a escola converteu-se no controle estatístico da domesticação de cidadãos, verdadeira maternidade de técnicos».
Trata-se de mais um contributo para um debate sério e calmo não só sobre o estado da nossa educação, mas sobretudo sobre as bases em que deve assentar uma autêntica educação dos portugueses. De todos os portugueses e não só das crianças e dos jovens portugueses. As recentes medidas tomadas sobre os professores, tomadas de forma desgarrada de uma profunda mudança paradigmática que Miguel Real deixa entrever, correm o risco de vermos os seus efeitos limitados a mais valias orçamentais. E os fenómenos mais recentes de indisciplina e até de violência no interior das escolas evidenciam a tremenda crise que atravessa a Escola e a educação em Portugal. Dir-se-à que a crise é da sociedade e que a Escola mais não reflecte do que isso mesmo. Mas não merecerá esta constatação uma reflexão acerca das relações Escola/Sociedade? Que valores deve a Escola transmitir? Que tipo de homem deve formar a Escola: o «homo economicus», isto é, mero produtor/consumidor? Eis algumas das questões de fundo que estão aí para debate.
António Assunção
António Assunção

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sós...

De onde vens, ó amigo,

que nunca vi teus sinais

do olhar ausentes?


Onde estás, ó amigo,

que não tenho sentido

de ti o grito da tua raiva?


Para onde vais, ó amigo,

que não deixas

de ti

sinais da tua ânsia

ao vento?


António Assunção

Vêm aí as "betoneiras" e...as eleições

Segundo escrevem alguns dos nossos comentadores, com destaque para José Manuel Fernandes, do jornal «Público», o Governo parece ter deixado cair o tão propalado "choque tecnológico" e já redireccionou as prioridades, agora que as eleições estão à porta. E as prioridades giram todas à volta do "betão".
O país, de forma aliás recorrente, vai para as estradas, para as barragens e para as pontes. As betoneiras, postas a descansar nos últimos anos, enquanto o "grande timoneiro" nos ia engodando com o "choque tecnológico" - aliás, importado, como é tradição histórica em Portugal, do estrangeiro, neste caso do MIT - vão deixar o descanso e vão invadir os estaleiros do país. É que, um pouco à imagem do que se passava na segunda metade do século XIX, nomeadamente com o "fontismo", só o cimento e o ferro são visíveis e, portanto, dão votos. Ao contrário do "choque tecnológico", invisível e pouco atractivo.
Estou em crer que o "grande timoneiro", à imagem do Guterres da "paixão pela da educação", já se deixou dessa paixão assolapada pela "tecnologia" e entrou já no tempo do "realismo" eleitoral, daquilo que, enfim, dá votos. Tanto mais que, um verdadeiro "choque tecnológico" exigia como sua condição indispensável e prioritária uma população altamente educada e culta. Ora, como a reforma da educação se resumiu a «pôr os professores na ordem» e isso já está pronto, com grandes poupanças para o grande desígnio nacional que é o Orçamento de Estado, o resto, isto é, uma autêntica reforma da educação, condição, repito, de um "choque tecnológico", fica para as calendas gregas...(Ah!, fica a previsão, sujeita a enganos: neste nosso capitalismo de estado, no qual apenas o povo «jamais beijou a sombra do Estado», nós não vamos ver o engodo de certas empresas pelo bolo das obras em perspectiva, nem envelopes "por baixo da mesa" quais "cheques-garantia" de futuras concessões de qualquer um dos dois partidos do "bloco dos interesses", nem outras coisas mais...)
António Assunção

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Viva o Povo do Tibete Livre!

Não assinei a petição apresentada hoje mesmo ao Parlamento português contra a repressão do povo do Tibete pela ditadura chinesa, mas estou de alma e coração com aquele povo de uma maravilhosa cultura e vida espiritual.

Sinceramente, estou pouco confiante que os nossos parlamentares, a começar pelo grupo parlamentar do partido do governo, sigam as recomendações dos peticionários. Manda o "realismo" político e ...mandam sobretudo os interesses e os negócios. Nos nossos dias, a política, no sentido nobre do termo, cedeu o lugar a esses interesses e quem manda é esse "mundo".

Já aquando da vinda a Portugal do Dalai Lama, o governo do sr. Sócrates deu uma imagem degradante de um país que, ao longo da sua história de 800 anos, sempre se caracterizou pelo seu universalismo e pelo seu "ecumenismo". Nos nossos dias, os princípios e os valores também já foram "comprados" pelo dinheiro...

Aqui fica o meu apoio ao povo do Tibete!

António Assunção

domingo, 6 de abril de 2008

Miguel Real e "A Morte de Portugal"

Tive a sorte de conhecer, muito recentemente,Miguel Real, por ocasião da sua vinda à Covilhã, convidado pelo "Café Literário" da Câmara Municipal. Antes disso, o meu conhecimento deste pensador, filósofo e escritor, vinha da leitura do seu ensaio "A Morte de Portugal", publicado pelo "Campo das Letras".A sua obra, literária e ensaística, contudo, é muito mais vasta e diversificada. Ainda no campo do ensaio, realce para "Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa" e, no domínio da ficção, quero realçar "A Voz da Terra", um romance histórico sobre o Marquês de Pombal e o Terramoto de 1755. É claro que a sua obra é muito mais vasta.
O ensaio "A Morte de Portugal" é uma profunda reflexão sobre a cultura e a História de Portugal desde a sua fundação até aos nossos dias. O autor, pensador crítico da cultura portuguesa, identifica, a partir da segunda metade do século XVI, ou, se quisermos, a partir do reinado de D.João III, quatro complexos culturais pelos quais Portugal se foi vendo a si mesmo ao longo da sua História: o complexo viriatino, associado, desde a Renascença Portuguesa, a Viriato, símbolo da «origem exemplar de Portugal»; o complexo Vieirino, cuja figura tutelar foi Padre António Vieira, o qual, depois da decadência iniciada a partir de D. João III, na segunda metade do século XVI e do fracasso de Alcácer Quibir, como que recupera a visão providencialista da nossa História, radicada em Ourique e continuada pelo «milenarismo» de Bandarra: Real denomina-o também o complexo de Nação Superior; o complexo de Nação Inferior surge com Pombal, que, na ânsia de nos integrar à força na Europa do seu tempo, fez tábua rasa da nossa idiossincrasia, forçando as nossas elites mediante um banho de "Europa": é o complexo pombalino; por fim, o complexo que Miguel Real chama de "Canibalismo Cultural" que caracteriza o Portugal moderno e contemporâneo, um tempo culturofágico, em que os portugueses se devoram mutuamente uns aos outros.
Miguel Real deixa, neste seu ensaio, uma visão muito crítica do Portugal do nosso tempo. Vale a pena ler e reflectir.